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Gabigol, do Flamengo: conheça o passo a passo da negociação do atacante de R$ 78 milhões



A maior contratação do futebol brasileiro desde Tevez no Corinthians foi concretizada em uma pequena cantina italiana. Perto do Duomo — a catedral de Milão — o diretor esportivo da Internazionale, Piero Ausilio, recebeu o diretor executivo Bruno Spindel e o vice de futebol Marcos Braz para sacramentar a venda de Gabigol ao Flamengo por R$ 78 milhões, em 28 de janeiro.


O clima era descontraído, entre antipastos e massas tradicionais num ambiente simples, mas bem frequentado. Como nem se falava no coronavírus que assombra a metrópole atualmente, o aperto de mão foi tranquilo, embora tenha tomado três dias de negociações, entre hotéis e telefonemas. À distância, parentes e agentes de Gabigol aprovaram.


— É uma relação de muita sinceridade e aberta: eu, minha família e meu estafe. Sempre conversávamos e lógico que tudo foi colocado na mesa, os prós e contras de todas as opções que tínhamos — diz o atacante.


Ausilio era a interface do Flamengo com a Inter desde agosto, quando os dirigentes rubro-negros fecharam presencialmente o valor da transferência — que praticamente se manteve. Faltava um acerto entre Flamengo e Gabigol, que se revelou a parte mais difícil.


Em 12 de janeiro, Marcos Braz e Bruno Spindel se encontraram com o empresário Junior Pedroso, o advogado Christian Toledo e o pai de Gabigol, Valdemir Silva, num hotel em São Paulo. Lá, acertaram o salário do atacante, que se tornou o atleta mais bem pago do país: R$ 1,5 milhão. Para haver acordo, o jogador abriu mão de valores variáveis, como premiações em futuras conquistas. Pelo lado do Flamengo, entendeu-se que valia o esforço depois dos 43 gols em 59 jogos em 2019, que selaram vitórias no Brasileiro e na Libertadores. O domingo paulista foi chave, ao longo dos cinco meses no total, após idas e vindas das três partes.


Idolatria e Copa


O novo contrato até o fim de 2023 estampa duas pretensões do atacante: tornar-se cada vez mais ídolo no Flamengo e defender a seleção na Copa do Qatar- 2022.

— Ficar no Flamengo foi o melhor projeto para a minha carreira. Tinha muita convicção disso e tomei essa decisão de forma muito tranquila — afirmou Gabigol ao GLOBO.


No Rio, o jogador se encantou com a forma com que foi tratado, além de ter se apaixonado pela cidade. Embora não tenha perdido o sonho de vingar na Europa, o que dificultou a renovação, o menino nascido em São Bernardo do Campo e criado na Vila Belmiro, em Santos, se sentiu em casa.


— Sabia que após um ano como o de 2019, propostas e sondagens iriam aparecer. Mas pesou a felicidade no Flamengo. Fizemos história no ano passado e nunca vai se apagar. O calor da torcida flamenguista no dia a dia, as mensagens de “fico” nas redes sociais, o tamanho do Flamengo hoje no cenário mundial, tudo isso fez com que eu optasse pelo Flamengo — confessa.


O sucesso no “casamento” e a idolatria esconderam, porém, algumas rusgas no processo. Em 4 de novembro de 2019, Marcos Braz divulgou que a Inter de Milão já estava satisfeita com a proposta do Flamengo para a compra de 80% dos direitos econômicos ao fim da temporada, por € 16 milhões, mas disse que o atacante ainda não havia decidido se queria ficar.


O recado do dirigente irritou Gabigol e seus representantes, e o negócio esfriou. A pretensão deles era voltar a conversar apenas depois da Libertadores. Com o título, graças a seus dois gols sobre o River Plate, seus representantes sinalizaram a volta do diálogo.


Mas Gabigol estava valorizado, e havia sondagens europeias. Dessa vez, foi o Flamengo que pediu para tratar apenas após o Mundial de Clubes, no fim de dezembro.


O cabo de guerra natural fez com que os italianos também crescessem os olhos. Antes convencidos em vender o atleta e ceder 80% dos direitos econômicos, agora queriam mais dinheiro, por 100%. Foi a vez de o Flamengo se incomodar. Não havia espaço para qualquer centavo a mais.


Por isso, no acerto com o jogador, o Flamengo exigiu que ele cedesse nos seus ganhos. Depois, Braz e Spindel decidiram ir à Itália, para um tudo ou nada. Em meio a isso, a Inter de Milão soube que o Flamengo receberia € 30 milhões pela venda de Reinier ao Real Madrid. Não lhes parecia faltar tanto dinheiro assim na Gávea.


O clube explicou que o pagamento por Reinier, em parcelas, não ajudaria no aporte para a compra de Gabigol. Os italianos insistiram e tinham uma boa razão: precisavam de dinheiro para contratar o meia dinamarquês Christian Eriksen, do Tottenham, que lhes custaria em seguida € 20 milhões e foi anunciado pelos milaneses no mesmo dia 28 de janeiro.


O desgaste do estafe de Gabigol com a Inter era enorme , mas chegou ao percentual de 90% por valor muito próximo ao acordado em agosto: € 16,5 milhões, também parcelados.

— Todo mundo foi duro com todo mundo. Mas correto. Não sei se precisávamos ter chegado a esse ponto, mas o fato de o preço não ter aumentado mostra que foi tudo correto — declarou Marcos Braz ao GLOBO.


Quando o negócio foi fechado, Gabigol estava em Santos. Ele nunca participa das rodadas. Quando soube do acordo, ajudou a produzir um vídeo e o postou antes mesmo do Flamengo no seu Instagram, que tem 7,4 milhões de seguidores. Essa é a plataforma em que a 4ComM, que gerencia sua carreira e imagem, projeta o crescimento de receita com o novo contrato. Além disso, devem se seguir licenciamento de produtos. Entre os projetos, está a criação de um boneco do camisa 9, que viraria personagem da Turma da Mônica.


— Sei que sou referência para crianças e apaixonados pelo Flamengo. A marca é feita de elementos que me representam, como atitudes, gestos, comportamento e disciplina. Recentemente construímos meu logo baseado na minha comemoração — diz ele, famoso por mostrar o “muque”. A Nike, que já o patrocinava, também deu início a uma nova série de comerciais.


— Ele tem um valor que é bem intangível, que é a imagem, com reflexo para o clube. Valorizamos essa cadeira de percepção de valor — diz Junior Pedroso, seu empresário. — O nosso direcionamento agora muda com ele. Como ele não tinha contrato longo com o Flamengo, não podíamos avançar em várias oportunidades.




(O Globo)

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