Temer negociou 'certas condições' com oposição, diz Sarney em gravação

May 25, 2016

O ex-presidente da República José Sarney (PMDB-AP) confidenciou ao ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que a oposição no Congresso estava resistindo à ideia de apoiar uma transição com Michel Temer na Presidência da República e que um apoio só foi aceito após "certas condições", as quais ele não detalhou.

 

A resistência dos opositores, segundo Sarney, foi vencida após uma intervenção do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). "Nem Michel eles queriam, eles querem, a oposição. Eles aceitam o parlamentarismo. Nem Michel eles queriam. Depois de uma conversa do Renan muito longa com eles, eles admitiram, diante de certas condições", disse Sarney a Machado, que assinou um acordo de delação premiada com a PGR (Procuradoria-Geral da República).

 

Sarney fez os comentários após Sérgio Machado dizer que "para o PSDB a água bateu aqui também. Eles sabem que são a próxima bola da vez", em referência às investigações da Operação Lava Jato.

 

Sarney respondeu: "Eles sabem que não vão se safar".

 

"E não tinham essa consciência. Eles achavam que iam botar todo mundo de bandeja", opinou Machado. Segundo o ex-presidente da Transpetro, agora tinha que ser "construída" alguma "solução", segundo a qual "Michel tem que ir para um governo grande, de salvação nacional, de integração".

 

Sarney disse que teve uma conversa com Temer e que "tudo isso está na cabeça dele, tudo isso ele já sabe".

 

O ex-presidente também respondeu a uma observação de Sérgio Machado, segundo o qual o Supremo havia "rasgado a Constituição" ao autorizar, em novembro passado, a prisão do então senador Delcídio do Amaral (ex-PT-MS), hoje outro delator da Lava Jato.

 

Sarney disse que o "pior foi o Senado se acovardar de uma maneira..." Para o ex-presidente, o Senado "não podia" ter concordado com a prisão de Delcídio decretada pelo STF.

 

"Não podia, a partir dali ele [Senado] acabou. Aquilo é uma página negra do Senado", lamentou o ex-presidente. "Porque não foi flagrante delito. Você tem que obedecer a lei", afirmou Machado. "Não tinha nem inquérito!", concordou Sarney.

 

Três meses depois, o próprio ministro relator do caso no STF, Teori Zavascki,determinou a soltura de Delcídio, que passou à prisão domiciliar. Para Sarney, a decisão agravou ainda mais a moral do Senado. "Agora o Teori acabou de desmoralizar o Senado porque mostrou que tem mais coragem que o Senado, manda soltar."

 

Para Machado, a situação "ficou muito mal". "A classe política está acabada. É um salve-se quem puder. Nessa coisa de navio que todo mundo quer fugir, morre todo mundo."

 

Falando sobre o desempenho de Renan Calheiros como político, José Sarney contou um episódio de 2006 que, para ele, mostraria a "ingenuidade" do atual presidente do Senado.

 

Acusado de ter recebido recursos de uma empreiteira para ajudar sua amante, Calheiros teria decidido entregar os documentos de Imposto de Renda para a TV Globo, o que, segundo ele, provaria sua inocência. Logo depois, porém, a emissora investigou os documentos e as reportagens agravaram um quadro que, meses depois, culminou na renúncia do Renan da presidência do Senado. Sarney contou: "E o Renan cometeu uma ingenuidade. No dia que ele chegou, quem deu isso pela primeira vez foi a [jornalista da TV Globo] Délis Ortiz. Eu cheguei lá era umas 4 horas, era um sábado, ele disse 'já entreguei todos os documentos para a Délis Ortiz, provando que eu... que foi dinheiro meu'. Eu disse: 'Renan, para jornalista você não dá documento nunca. Você fazer um negócio desse. O que isso vai te trazer de dor de cabeça'. Não deu outra".

Sérgio Machado concordou: "Renan erra muito no varejo".

 

OUTRO LADO

 

A assessoria de Renan Calheiros informou que o senador "não tem como avaliar comentários que terceiros façam sobre a sua conduta como político". Sobre a decisão do Senado que apoiou a prisão de Delcídio, em novembro, a assessoria de Renan disse que sua posição "foi pública e consta das notas taquigráficas daquela sessão". Naquele dia, segundo registrou a imprensa na época, Renan fez uma reunião com um grupo de senadores e defendeu a soltura de Delcídio, por entender que a prisão não atendia aos requisitos legais, mas sua posição inicial foi vencida.

 

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