Festival de Bonito: sons do litoral central

August 15, 2016

Cercada pela vegetação do cerrado, rios de águas claras e grutas, no coração do Mato Grosso do Sul, uma história é lembrada — uma história raras vezes contada fora das linhas do estado. Nada de lendas indígenas ou “causos” sertanejos. O cenário é o palco do Festival de Inverno de Bonito, e a história é urbana — a música popular sul-mato-grossense contada por seus personagens. Artistas de diferentes gerações participam do “Tributo a Geraldo Roca”, show que lembra um dos que iniciaram tudo aquilo e mapeia o que veio depois — e o que está chegando. O compositor, morto no ano passado, é considerado um dos fundadores desse movimento:

— Geraldo Roca, Paulo Simões e Geraldo Espíndola (irmão de Tetê Espíndola e de Alzira E, nomes atuantes dessa história, que ajudaram a fazer com que essa produção conseguisse alguma entrada fora do Mato Grosso do Sul) são o tripé da música popular urbana do Mato Grosso do Sul, iniciada no início dos anos 1970 — conta Jerry Espíndola, integrante do trio Hermanos Irmãos e um dos organizadores da homenagem, lembrando a classificação provocativa que Roca usava para falar da música que ele e seus conterrâneos têm feito desde então. — Ele chamava essa produção de “música do litoral central”

 

A ideia do tributo a Roca — autor de “Trem do Pantanal”, canção de resistência à ditadura tida como hino não oficial do Mato Grosso do Sul — já amadurecia em conversas entre os integrantes do Hermanos Irmãos (formado também por Rodrigo Teixeira e Márcio De Camillo). Até que o Festival de Inverno de Bonito os convidou com a mesma ideia, pedindo a eles que organizassem a homenagem.

 

— Pensamos em chamar artistas da geração de Roca, outros intermediários, como nós e a Guga Borba, e os mais jovens, como Ju Souc, Jonavo e Marina Dalla — diz Espíndola. — A ideia é de um caminho mesmo.

Um caminho fluvial, bem diferente do traçado nos litorais de Rio, Salvador e Recife — há paralelos com outra música crescida longe demais das capitais, como a “A estética do frio” de Vitor Ramil.

 

— A música daqui tem características bastante especiais — conta Rodrigo Teixeira. — A proximidade com as fronteiras da Bolívia e do Paraguai são fundamentais, trazendo os ritmos ternários que baseiam a música sul-mato-grossense, a polca paraguaia, o chamamé e a guarânia. É uma região que nunca entrou na moda. E, se por um lado produz Tetê, Almir Sater, Geraldo Roca, por outro produz Luan Santana. Há uma música subterrânea e outra extremamente popular. E ambas têm a ver com algo que me faltou quando fui morar no Rio e procurava músicos para tocar comigo. Encontrei ótimos instrumentistas, mas faltava a “paraguaíce”. Aqui você tem a América do Sul dentro do Brasil.

“É COMO A NAÇÃO ZUMBI FAZ COM O MARACATU

 

”Da entrada de elementos como o folk de Bob Dylan nos 1970, passando pela polca-rock do início dos 1990, a música do Mato Grosso do Sul hoje desemboca em novos rios paralelos. Alguns deles puderam ser vistos na programação do Festival de Inverno de Bonito, no fim de julho. É o caso do “rock tropical” da banda O Santo Chico, com referências que incluem Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Hendrix, Criolo e Adoniram Barbosa, além de toda a tradição local — em sua apresentação, cantaram “Cunhataiporã”, de Geraldo Espíndola.— É bem natural incorporar isso, “Cunhataiporã” é um hino pra gente. É como a Nação Zumbi faz com o maracatu — explica o vocalista, Begèt De Lucena.

 

Pelo palco, passou ainda a banda Curimba, um cruzamento azeitado de samba-rock com uma pegada pop-soul à la Jota Quest — com vários hits locais, impulsionados pelas rádios do Mato Grosso do Sul e confirmados pela reação da plateia. Outra atração, com mergulho mais fundo nas raízes do estado, é a Orquestra Filarmônica Jovem do Pantanal, surgida para o projeto “Araras da cidade músicas do mato”, que funde a tradicional viola de cocho à formação orquestral.

 

— É a orquestra se adequando às limitações da viola de cocho, ao mesmo tempo em que se permite entrar numa concepção musical totalmente nova. Respeitamos a viola, sem engoli-la com a sonoridade da orquestra. Mantemos o cheiro da coisa — explica o maestro Eduardo Martinelli.

 

Outros nomes se destacam. Marina Peralta se insere com qualidade dentro da cena da chamada nova MPB, que vem se desenvolvendo desde a década passada — em 2015, ela cantou em Bonito como convidada no show de Curumin. Jonavo desenvolve trabalho solo e é um dos integrantes do projeto paulistano Folk Na Kombi. Novos representantes do litoral central, como destaca Rodrigo Teixeira:

— É o que cantou Milton Nascimento: “A novidade é que o Brasil não é só litoral/ É muito mais, é muito mais que qualquer Zona Sul”. (Leonardo Lichote - O Globo)



 



 

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