O serpentário brasileiro se chama(va) Brasília

May 4, 2017

 

O circo está sendo montado. A cada 4 anos, vemos as mesmas vicissitudes de um sistema político falido sendo repetidas e perpetuadas por meio de um padrão de comportamento político emulado de maneira categórica pelo povo brasileiro; poderia essa ser a sinopse de mais uma eleição com ares de sepultamento da civilidade, porém as coisas parecem tomar rumos diferentes: saímos das urnas em 2014 já cansados, já insatisfeitos. Alguns foram enganados por um discurso que prometeu e não fez, outros enganados por um discurso que prometeu e não faria. No fim das contas, o desfecho mais provável para a sequência do pleito acabou se consumando: Dilma Rousseff se tornou uma presidente extremamente impopular e, por razões das quais não tecerei juízo de valor, sofreu um processo de impeachment. 

 

Com a ascensão de uma das velhas serpentes da política brasileira, o fisiológico e contestável peemedebista Michel Temer, o vácuo de representatividade já aberto pelo pleito deficitário e vazio de 2014 ganhou ares dramáticos: onde está o sonho econômico e social prometido por petistas e tucanos? Onde está a Petrobras forte e revitalizada, não surrupiada por petistas, tucanos, progressistas, peemedebistas? Onde está a moralidade então preconizada pelas duas chapas de 2014 dentro da política nacional? Não é por menos que a população brasileira quer e deve expressar seu juízo e sua opinião dentro das urnas o quanto antes, e é essa ânsia que torna as próximas eleições tão únicas e vitais para o soerguimento da democracia brasileiro, tal como em 1989.

          

Teremos pela primeira vez em muito tempo, a falta de um candidato impulsionado pela máquina federal, afinal é improvável que Temer se atreva a tentar oferecer seu nome como opção a uma população que lhe ojeriza expressamente por meio de pesquisas de opinião e aprovação governamental. Tal conformação ajuda a intensificar o quadro de falta de representatividade legado pelo último escrutínio brasileiro, e nos leva, em situação semelhante a de 89, a uma eleição que apresentará candidatos de diferentes espectros ideológicos.

 

Pela primeira vez em muito tempo, sairemos do antagonismo esquerda e centro (com feições de direita e algumas poucas de esquerda) protagonizado por PT e PSDB, e passaremos a ter candidatos competitivos na grande parte do espectro ideológico; não pensem, pois, que isso é ruim ao sistema democrático, por de alguma forma gerar indecisões e instabilidades hipotéticas, porque a realidade pós-2018 vai apresentar um candidato referendado pelo povo brasileiro e que terá logrado êxito sobre todas as demais correntes políticas que se apresentem como opção ao povo brasileiro.

 

A esquerda, que se vê devastada pelo desastre administrativo e político que foi o governo Dilma, pode se fragmentar ou não, dependendo das condições jurídicas que assegurem a candidatura de Lula (que se justificaria pelo saudosismo que uma parcela significativa do eleitorado por ele nutre, mas que não significaria uma mudança de projeto político ou de norteamento da atividade do gestor público, haja vista os inúmeros indícios das práticas nada republicanas que germinaram no Planalto quando de sua presidência), do fortalecimento da candidatura de Ciro Gomes e seu desenvolvimentismo, e da capacidade da esquerda de agregar seus eleitores já assentados que se decepcionaram com as temeridades cometidas ao longo de 13 anos de administração (e que podem dar maior peso a uma candidatura do PSOL, por exemplo, ainda que com chance ínfima de êxito).

 

Figurinhas carimbadas de outros pleitos, como Marina Silva, Aécio Neves, Serra e Alckmin têm, para o bem e para o mal, um maior conhecimento do grande público, mas que também é um dos fatores que tornam as críticas a eles mais retumbantes, seja pela maneira inerte como Marina se portou nos últimos anos, e que pode conferir ao seu destino a antiga frase: “quem fica em cima do muro recebe tiro dos dois lados” ou pelas denúncias que infestaram o ninho tucano e que põem em cheque as chance de êxito dos caciques do partido.         

 

Do outro lado do espectro ideológico, composto pelo ultraconservadorismo e pelo conservadorismo liberal, não são menores as objeções dentro do contexto eleitoral que podem complicar o sucesso de uma dessas correntes em 2018. Para os conservadores liberais, o nome de João Dória aparece em ascensão meteórica (ainda que seja ele do PSDB, um partido, em tese, de centro-esquerda) e com um potencial enorme de crescimento (ainda é pouco conhecido pelo grande público), embora talvez não galgue para si a habilidade política exigida para um cargo de tal envergadura nem a experiência, que não pode ser pautada apenas por menos de 2 anos a frente da Prefeitura de São Paulo; outros nomes ventilados, como Ronaldo Caiado e ACM Neto, parecem ser boas opções para assentar essa vertente ideológica que, há muitos anos, não se lança à presidência, embora ainda sejam ilustres desconhecidos do grande público e que, muito provavelmente, devem se ater a disputar os cargos de Governador em seus respectivos estados.

 

E, por fim, não há como deixar de mencionar esse fenômeno eleitoral que, por incrível que pareça, pode ser facilmente explicado: Jair Bolsonaro. O polêmico parlamentar fluminense tem em seu favor a guinada à (extrema) direita que vem tomando conta dos recentes resultados eleitorais, além de uma base eleitoral fervorosa e sólida que lhe catapulta ao 2° lugar das pesquisas eleitorais. No entanto, a boquirrota retórica do ex-militar, que lhe envolveu e ainda envolve em pendengas judiciais como no caso Maria do Rosário, suas posições contundentes e vistas por muitos como radicais e até mesmo preconceituosas são objeto de grande contestação ao congressista, que também peca pela falta de articulação política, mas que tem em seu favor a conversão do eleitorado ultraconservador que se escondia sob a asa dos candidatos tucanos, e passa a lhes representar de maneira clara dentro do sistema democrática.

              

De fato, é difícil, dentro das opções que parecem se desenhar para 2018, prever o que de fato acontecerá, graças aos nuances que envolvem a formação de chapas dentro dos mais diferentes espectros políticos. O que se pode afirmar de maneira clara e plena é que ainda há espaço e tempo para que um outsider oriundo do judiciário ou do meio empresarial se apresente como opção e, por mais desconhecido que seja, assumirá para si um discurso antipolítico que está em franca ascensão em tempos de Lava Jato, reformas enfiadas por goela abaixo e falta de representatividade. De qualquer forma, é fundamental que saibamos da importância de 2018 para a democracia brasileira e da possibilidade de conferir a esse processo eleitoral as características intrínsecas ao seu sucesso: pluralismo político, ética e um presidente que assuma a  presidência tendo como grande trunfo não o fisiologismo ou as alianças políticas, mas sim a legitimidade real conferida pelas urnas.

 

 

*Acadêmico de Direito - USP/ Largo de São Francisco

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