Militares aumentam a pressão sobre o governo após a saída de generais

June 21, 2019

 

A saída do general Carlos Alberto dos Santos Cruz da Secretaria de Governo da Presidência da República deixou uma ferida aberta no núcleo militar do Planalto. A ordem tácita de comando é uma espécie de recuo estratégico no grupo que mais acumula poder desde a posse do capitão reformado, em 1º de janeiro. Um “meia volta, volver” cuidadoso para buscar avanços nos próximos capítulos. Não há qualquer sinal de debandada ou insatisfação pública dos integrantes da Esplanada. Mas, nos bastidores, há uma irritação com o processo de fritura de Santos Cruz, um dos homens mais bem preparados do Exército e vítima de ataques internos no Planalto e externos, ao considerar as mensagens disparadas por Olavo de Carvalho, guru de uma ala desassisada do Planalto e do Congresso.

A demissão de Santos Cruz ocorreu uma semana antes de uma nova troca de cadeiras na Esplanada. Nesta quinta-feira (20/6), Bolsonaro decidiu exonerar mais um general do primeiro escalão do governo. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, general Floriano Peixoto — que está na reserva desde 2014 —, deixou o cargo. Em troca, vai assumir a presidência dos Correios no lugar do também general Juarez Cunha, demitido em público pelo presidente na semana passada. O cargo na estatal havia sido oferecido a Santos Cruz, que não o aceitou.

A saída de Santos Cruz representa, por um lado, a reacomodação do grupo militar, principalmente com a entrada do general Luiz Eduardo Ramos, ligado a Bolsonaro e cotado desde o primeiro momento para ocupar um cargo na Esplanada por dois motivos: as quatro estrelas, a mais alta graduação do comando, e a relação direta com o presidente. Mas, aliada com o enfraquecimento de militares da reserva — como o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas e o próprio ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno —, a desenvoltura da caserna é posta em xeque, pelo menos por ora. “Tudo vai depender de como Ramos vai remar a partir de agora. Se for apenas para dizer ‘sim’ para o presidente e os olavetes, há um enfraquecimento do time militar”, disse um oficial com acesso à turma do andar superior do Planalto.

 

A frase é uma espécie de provocação de Santos Cruz, tomada ainda no início de maio. O general, então um dos ministros mais fortes do governo, procurou Bolsonaro para pedir uma posição mais firme em relação a Olavo. O escritor, que mora nos Estados Unidos, havia acabado de atacar Villas Bôas: “Há coisas que nunca esperei ver, mas estou vendo. A pior delas foi altos oficiais militares, acossados por afirmações minhas que não conseguem contestar, irem buscar proteção escondendo-se por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas. Nem o Lula seria capaz de tamanha baixeza”, escreveu Olavo no Twitter. Repeitado pela tropa, Villas Bôas sofre de uma doença neuromotora degenerativa. “Santos Cruz foi o único que intercedeu a favor do comandante, até porque também havia sido atacado anteriormente por Olavo”, disse o oficial. Não adiantou, pois o presidente manteve uma imparcialidade olímpica em relação à disputa guru/militares.

Mesmo que neguem publicamente, havia uma expectativa dos militares em tutelar Bolsonaro, o que não se confirmou ao longo dos primeiros seis meses de mandato. Se não é possível cravar que o grupo dos olavetes — incluindo aí os filhos do presidente e os parlamentares do PSL — ganhou a queda de braço, os militares sentem o baque de decisões de Bolsonaro como o amplo decreto das armas e o projeto de lei com mudanças nas regras de trânsito, que favorece motoristas infratores. “Há um certo cansaço neste momento, basta ver o próprio general Heleno”, disse um político ligado ao Planalto. Heleno, primeiro comandante da Missão das Nações Unidas no Haiti — entre 2004 e 2005 —, buscou até o último momento contornar a crise entre Bolsonaro e Santos Cruz, que também chefiou as tropas no país caribenho.

 

 

 

(Leonardo Cavalcanti)

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